sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Wilco: retorno às origens

CD Sky Blue Sky (Nonesuch, importado)
2007


Resenha publicada no jornal
IM - INTERNATIONAL MAGAZINE, edição nº 132 (maio de 2007).



Banda americana dá férias aos experimentalismos. E acaba cometendo um disco ótimo.

Três anos após o último álbum de estúdio, A Ghost Is Born, o Wilco acaba de lançar (pela Nonesuch, importado) o seu novo trabalho, Sky Blue Sky. Em 2005, foi editado Kicking Televison, considerado por muitos o melhor ao vivo já lançado. Com lançamento previsto para o mês de maio, Sky... acabou vazando na web bem antes dessa data.

A banda americana era um dos expoentes do chamado country alternativo - o que se convencionou chamar de alt.country -, marcado pela adição de dissonâncias e efeitos até então incomuns ao gênero. Só que, dessa vez, a proposta é outra.

Distante do experimentalismo do ótimo Yankee Hotel Foxtrot (2002), o grupo do vocalista Jeff Tweedy cometeu um disco bucólico, setentista, de canções propriamente ditas, embaladas em arranjos agridoces. Ou seja, o grupo fez um retorno às suas origens campestres.

A delicada Either Way, que abre a bolacha, arrebata o ouvinte logo nas primeiras notas. Mas é importante dizer: não se trata de um trabalho de digestão imediata - a cada nova audição, novos detalhes são percebidos, e o disco cresce. O Wilco foi felicíssimo na elaboração de melodias e (como sempre) na escolha de timbres. Exemplos: Leave Me (Like You Found Me), Side With the Seeds e, principalmente, a faixa-título - simplesmente linda. You Are My Face é infalível rock rural. E Impossible Germany traz, em seu final, um longo solo de guitarra que poderia muito bem estar em um álbum do... Bread.


Seriíssimo candidato a álbum do ano

Aliás, além da extinta banda de David Gates, percebe-se também, ao longo do disco, a influência clara de Neil Young - em especial, do excelente Harvest Moon, que o mestre lançou em 1992 - e... do Wings (ouça Hate It Here).

(Curiosidade: há um trecho instrumental de Walken, que lembra bastante um solfejo de Heart of the Country, faixa do clássico Ram, que McCartney gravou em 1972. Confiram.)

Em tempos tão cínicos, conceber um trabalho com tanta suavidade e emoção chega a ser... um ato de coragem.

É claro que quem aguardava o clima tenso de outrora pode estranhar o ambiente reflexivo de Sky Blue Sky. Contudo, a banda apresenta, com astúcia, uma nova nuance de si própria. Diante de um novo trabalho com distorções e microfonias, a impressão geral seria: Wilco repete fórmula, etc e tal.

E, muito provavelmente, foi isso o que o grupo quis evitar.

O Wilco desenvolve um dos mais relevantes trabalhos no pop atual. No entanto, até o presente momento, não obteve no Brasil o merecido reconhecimento. Embora carregado de influências e nem um pouco moderno (mas quem se importa com isso?), Sky Blue Sky é um disco longe do óbvio e muito bonito, que aumentará consideravelmente o respeito daqueles que já acompanham a trajetória do quarteto - e ainda poderá arregimentar novos fãs.

Desde já, é um seriíssimo candidato a álbum do ano.

Nenhum comentário: