sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Mick Jagger revisa os seus melhores momentos solo


CD The Very Best of Mick Jagger (Warner)
2007


Resenha publicada originalmente no jornal
IM - INTERNATIONAL MAGAZINE, edição nº 138 (novembro de 2007).



Não, você não leu errado: o líder dos Stones acaba de editar uma compilação de seus trabalhos fora da banda

Para muitos, pode ser risível a notícia de que o vocalista e líder dos Rolling Stones, Mick Jagger, lançou uma coletânea com 17 faixas de sua carreira solo, sintomaticamente batizada de The Very Best of... (Warner). Mas a verdade é que a idéia não é tão estapafúrdia assim.

O senhor Lábios de Borracha editou o primeiro trabalho longe de seus companheiros em 1985, durante o que podemos chamar de uma... ... “crise conjugal” na banda. Intitulado She's The Boss, o disco - mesmo tendo na ficha técnica nomes como Jeff Beck, Pete Townshend (The Who) e Herbie Hancock - soou decepcionante. Contudo, a ótima “Just Another Night” (que conta com os craques jamaicanos Sly & Robbie na cozinha) teve boa execução radiofônica. Em 1986, os Stones lançaram Dirty Work, considerado um dos álbuns mais fracos do grupo - e que, na época, acabou reforçando a impressão de má-fase.

No ano seguinte, Jagger tenta um novo vôo solitário. Produzido por Dave Stewart (Eurythmics), Primitive Cool, apesar do quase-hit “Let's Work”, está bem longe de ser empolgante - embora o lendário Ezequiel Neves pense justamente o contrário. Em 1989, com as arestas - presume-se - aparadas, os Rolling Stones editam o bom álbum de inéditas Steel Wheels, que gerou turnês norte-americana e européia, devidamente registradas no álbum ao vivo Flashpoint, de 1991.

Dois anos depois, Mick editaria o seu terceiro disco solo, o ambicioso Wandering Spirit. Provavelmente encorajado pelo recente êxito com os Stones (ou escaldado pelo resultado pífio de seus trabalhos anteriores), Jagger decidiu não jogar para perder e, logo de cara, chamou o barbudo Rick Rubin para produzir a empreitada. Acertou em cheio.

Apresentando o rock sacana de sempre (a debochada “Put Me In The Trash”), baladas de dilacerar o coração (“Don't Tear Me Up”, onde o cantor reflete sobre a passagem do tempo), country (a linda “Evening Gown”) e até funk (“Sweet Thing”), o pai de Lucas Jagger simplesmente estraçalhou. Com participações especiais de Flea (Red Hot Chilli Peppers), Lenny Kravitz, do finado Billy Preston e de Doug Wimbish (baixista do Living Colour), Wandering Spirit é, sem sombra de dúvida, o seu melhor trabalho solo.

Após dois bem-sucedidos giros mundiais ao lado dos Stones (ambos, aliás, passaram pelo Brasil), Jagger editou em 2001 o seu quarto disco solo, Goddess In The Doorway. Mesmo sem superar o antecessor Wandering Spirit, Goddess... não faz feio com porradas como “God Gave Me Everything”, parceria com o supracitado Lenny Kravitz (que também toca guitarra na faixa) - e que, não por acaso, abre essa compilação; “Joy” (duo com Bono, do U2); e a “romântica” “Don't Call Me Up”.

A despeito de algumas notáveis ausências (“Hard Woman”, de She's The Boss; “Say You Will”, de Primitive Cool; “Out Of Focus” e “Wired All Night”, de Wandering Spirit; e a bela “Visions Of Paradise”, de Goddess In The Doorway), The Very Best of... cumpre bem o papel de despertar a curiosidade do público em ouvir, sem preconceito, o que realizou o parceiro de Keith Richards longe da banda.

Mesmo para os Stones-maníacos que possuem os quatro discos de Jagger, a coletânea traz atrativos extras: o primeiro single solo do cantor, “Memo From Turner” (da trilha do filme Performance), duetos com David Bowie (“Dancing In The Streets”, gravada especialmente para o Live Aid), Peter Tosh (“Don't Look Back”) e com o já mencionado Dave Stewart (“Old Habits Die Hard”), além das três inéditas “Charmed Life”, “Checkin' Up On My Baby” (com a banda de blues Red Devils) e “Too Many Cooks (Spoil The Soup)”, produzida por ninguém menos que John Lennon. A versão importada ainda traz um DVD-bônus com clipes de “God Gave Me Everything”, “Sweet Thing” e “Joy”, entre outros, além de uma entrevista com o músico. Ê, primeiro-mundo...

Quando os Rolling Stones forem para o vinagre, os posteriores trabalhos de Mick Jagger decerto JAMAIS superarão discos clássicos da banda como Exile on Main Street ou Tattoo You. Entretanto, se isso servir de consolo, ouvi-los até que pode vir a ser uma experiência bem divertida...

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