quarta-feira, 27 de agosto de 2008

The Police: somos História



Show

The Police - Live in Rio
Data: 08 de dezembro de 2007
Local: Estádio do Maracanã - Rio de Janeiro



Police concretiza o que todos imaginavam: uma apresentação antológica no Estádio do Maracanã

Antes de qualquer coisa, é necessário considerar as circunstâncias: o Police, no auge do sucesso, após a Synchronicity Tour, entrara em um recesso do qual não retornaria. As brigas internas foram o principal motivo da ruptura, mas some-se a isso o desejo de liberdade artística por parte de Sting.

Quando indagado sobre um possível retorno do grupo, o vocalista era taxativo: “Uma volta do Police? Sem mim!”. Ou pior: “se um dia eu voltar para o Police, será o meu certificado de insanidade.” Enfim, mesmo com os três integrantes vivos, a possibilidade de um retorno do Police era tão remota quanto uma volta... dos Beatles.

Essas adversidades justificaram o espanto do planeta diante da apresentação do trio na entrega do Grammy de 2007. E o espanto foi ainda maior no dia seguinte, quando foi feito o anúncio de um giro mundial do grupo. Ninguém aqui no Brasil, contudo, esperava que a turnê pudesse passar por essas plagas. Portanto, quando foi confirmado de que haveria uma única - sim, apenas uma - apresentação em terras brasileiras, no Estádio do Maracanã, era de esperar que seria algo singular. Não deu outra.

E assim, 74 mil pessoas estiveram presentes em um evento cujo ingresso mais barato custava R$ 160,00. Mas o investimento valia a pena.



Paralamas mostram que a escolha foi acertada


Seria uma enorme injustiça resumir em duas ou três linhas o show de abertura realizado pelos Paralamas do Sucesso. Quando os telões se acenderam (sim, o Police permitiu que os Paralamas utilizassem os telões) e os acordes iniciais de ancestral “Vital e Sua Moto” se fizeram ouvir, a reação do público foi imediata. E avassaladora.

Com petardos como “Trac Trac”, “Alagados”, uma pesadíssima “Mensagem de Amor” e baladas como “Lanterna dos Afogados” e “Cuide Bem do Seu Amor”, o trio simplesmente estraçalhou, realizando um show que - sem “patriotada” - nada deveu aos donos da festa. Aliás, pela identificação com o Police no início da carreira, os Paralamas eram a banda mais apropriada para estar ali naquele momento.

Além disso - independentemente da questão da influência -, a banda brasileira, ao vivo, continua sendo uma verdadeira máquina. João Barone, todos sabem, é um monstro das baquetas. Bi Ribeiro recebeu elogios até mesmo de Sting (o inglês visitou o camarim e teria dito ao baixista: “Você é o melhor. E sabe disso”). E Herbert Vianna parece aprimorar cada vez mais a sua destreza na guitarra.

O líder dos Paralamas, aliás - pelo autor que é, e pela maneira digna que vem enfrentando as seqüelas do terrível acidente que vitimou sua esposa, Lucy Vianna -, merecia esse momento de consagração. Digo mais: a despeito de seus problemas de locomoção, Herbert Vianna (mesmo sem jamais ter sido um grande “cantor”, na acepção da palavra) é muito mais intenso e competente em cima de um palco do que muito vocalista brasileiro que caminhe normalmente.

Em um repertório de quatorze músicas bem escolhidas (e contando com a participação do guitarrista Andreas Kisser, do Sepultura, em seis), os PDS pareciam em paz com o seu passado e orgulhosos de sua trajetória. E, devido ao tempo reduzido, ainda se deram ao luxo de deixar de fora sucessos como “Me Liga”, “Uns Dias” e a tocante “Busca Vida”, entre outras.

Não resta dúvida: os Paralamas do Sucesso são uma instituição do rock nacional. E não se fala mais nisso.



Na terceira música, a platéia já estava na mão do Police


Uma hora após o show dos Paralamas, as luzes do estádio foram apagadas e - como tem acontecido nas demais apresentações do Police ao redor do mundo - os amplificadores começaram a tocar a poderosa “Get Up, Stand Up”, na gravação original de Bob Marley & The Wailers. Ao término da canção, o kit de bateria de se ergue do chão e Stewart Copeland soa um gongo. O guitarrista Andy Summers surge pela direita do palco, mandando o riff mortífero de “Message In a Bottle”. Sting, então, entra pela esquerda como quem “anuncia um assalto”, portando um (bastante adequado) contrabaixo todo detonado.

Outro riff célebre anunciou a canção seguinte, a áspera “Synchronicity II”. Os telões, então, se acenderam, oscilando furiosamente nas cores azul, vermelho e amarelo da capa do disco homônimo. E o encadeamento dessa música com a anterior ocorreu de modo tão natural que ambas pareciam gêmeas siamesas.

A linda “Walking On The Moon”, composta por um apaixonado Sting para a sua primeira namorada - Deborah Anderson, falecida no final dos anos 70, quando ele já estava em seu primeiro casamento - foi o momento de “acalmar os ânimos”. A resposta do público aos improvisos da canção deixou claro: na terceira música, a platéia já estava na mão do trio. Por falar em trio: durante o show inteiro, permaneceram apenas os três músicos no palco - sem tecladista, percussionista, vocalistas, nada disso. E logo se percebeu que eles simplesmente... bastavam-se.

O vocalista, gentil, se dirigiu à platéia lendo algumas palavras em português (lembrando bastante a entonação do falecido Papa João Paulo II) e cantou quatro faixas de Zenyatta Mondatta (1980), o ótimo terceiro disco da banda: “Voices Inside My Head”, “When The World Is Running Down You Make The Best Of What's Still Around”, “Don't Stand So Close To Me” e a politizada “Driven To Tears” (cuja letra fala da fome em Biafra, território pertencente à Nigéria).

Seguiram-se então dois lados B de Outlandos d'Amour (1978), o primeiro álbum do trio: “Hole In My Life” e “Truth Hits Everybody”, recebidas pelo público com respeito - mas com pouco entusiasmo. “Every Little Thing She Does Is Magic” foi um momento, com o perdão do simplismo... hum, mágico. Mesmo sem os teclados da gravação original, a canção foi executada com a energia de sempre.



'Reggatta de Blanc': transe coletivo

Na sinuosa “Wrapped Around Your Finger”, que ganhou ares de bossa, Stewart Copeland se deslocou da percussão para a bateria e, por fim, para o xilofone, em um show à parte. “De Do Do Do De Da Da Da” foi um dos pontos altos do show, com seu refrão cantado a plenos pulmões pelo público.

No segundo momento politizado da noite, “Invisble Sun” (“não quero jamais fazer parte de uma estatística governamental”, diz a amarga letra), os telões ficaram em preto-e-branco, exibindo imagens da miséria no continente africano. Curioso foi ver Sting, na introdução de “Walking In Your Footsteps”, tocando um instrumento indígena chamado flauta de pã. Bem, já na Synchronicity Tour, última turnê do grupo, ele fazia a mesma coisa. Mas que muita gente deve ter pensado que era alguma menção ao cacique Raoni, ah, isso deve...

O cantor emendou à “Can't Stand Losing You” a bombástica instrumental “Regatta de Blanc”, faixa-título do clássico segundo álbum da banda, de 1979. E a reação da platéia a esse número só poderia ser definida como... um transe coletivo. Um momento para chorar de alegria. Uma incendiária “Roxanne” encerrou a primeira parte do show. O trio retornou ao palco com “King Of Pain”, belíssima, seguida da sempre eficaz “So Lonely”.

Ficou claro que a banda é como um triângulo em que todos os vértices têm a sua importância. Sting, além de artífice das belas canções do grupo, é um grande baixista e um front man seguro e carismático. Andy Summers, com suas inspiradas texturas de guitarra, confere um charme todo especial à sonoridade do trio. E Stewart Copeland... esse dispensa comentários. É simplesmente uma força da natureza.



“Every Breath You Take”: uma dádiva Divina

Quanto à “Every Breath You Take”... Bem, o indivíduo que compõe uma música como essa (certamente uma das mais bonitas do cancioneiro pop mundial ever) pode ter a convicção de que recebeu uma dádiva Divina. Quase um quarto de século após o seu lançamento, a canção que fala do sujeito que foi dispensado pelo seu objeto de desejo, tornando-se obsessivo depois disso - e que acabou sendo percebida pela maioria como uma “musiquinha romântica” -, tem a sua beleza preservada. Na terceira parte, o momento mais forte, em que Sting aumenta o tom e canta “Since you've gone I've been lost without a trace”, pessoas mais fenfíveis eram capazes de se emocionar - esse repórter incluso.

Apesar da atuação impecável, houve quem criticasse a “desaceleração” de uma música aqui, um improviso de jazz ali, não-sei-o-que-mais acolá... De fato, algumas canções foram apresentadas com um andamento mais lento. Mas isso tem explicação: em primeiro lugar, eles já não são, obviamente, os jovenzinhos de outrora.

Segundo, nesses anos pós-Police, o trio teve, isoladamente, muitas experiências musicais. Sting expôs a sua paixão antiga pelo jazz; Summers andou tocando até com Robert Fripp, do King Crimson; e Copeland envolveu-se com trilhas de cinema - a do filme O Que É Isso, Companheiro?, por exemplo, é de sua autoria. Portanto, para que essa empreitada fosse minimamente verdadeira, eles deveriam mostrar os músicos que são hoje.

De qualquer forma, no grand finale com “Next To You”, que abre Outlandos d'Amour, eles carregaram nas tintas e tocaram com espontaneidade e energia punks condizentes com a gravação original.

As ausências do roteiro foram “Bring On The Night” (que sempre funcionou bem ao vivo), “Tea In The Sahara” e “Spirits In The Material World” (para a qual a banda não conseguiu uma solução satisfatória de arranjo).



O futuro da banda é uma incógnita


Após o término da turnê, o futuro do trio é uma incógnita. Não há, a princípio, nenhuma hipótese de um (arriscadíssimo, mas muito bem-vindo) álbum de inéditas. Na verdade, não se comenta sequer sobre um possível registro da turnê - ainda que, na rua Uruguaiana, Centro do Rio, seja facílimo encontrar, em DVD, a íntegra da apresentação, gravada através da transmissão do canal Multishow.

Pode ser que, no final das contas, tudo volte a ser como d'antes no quartel de Abrantes - e essa tenha sido tão somente uma turnê comemorativa, sem nenhum desdobramento. Ainda assim, teremos que ser eternamente gratos à bendita “insanidade” de Sting. As 74 mil pessoas que estiveram no Maracanã no dia 08 de dezembro de 2007 (assim como as milhões que assistiram a esse espetáculo em vários cantos do planeta) presenciaram um momento único, histórico.

E, daqui há alguns anos, teremos mais essa para contar para os nossos netinhos.

3 comentários:

Cláudia Costa disse...

Melhor que vinho nesse tempo nostálgico é ler esse mega e detalhado texto. Dá uma raiva profunda de não ter assistido esse show, pq quase se ouve os acordes tocados por eles nas tuas palavras.

Dá pra arfar de ansiedade por ouví-los, me fez sair caçando o q tenho de paralamas e police aqui só pra aliviar a sensação.

Sting...ah... como eu amava o Sting...obrigada por ser tão detalhista meu querido amigo. Amei seu texto.

Tom Neto disse...

Claudia,

É muito gratificante a sensação de estar atingindo o público certo: pessoas que, como você, apreciam a boa música - que é atemporal.

Muito obrigado pela leitura atenta e pelo carinho de sempre. :)

Tom Neto disse...

Sting...ah... como eu amava o Sting...

Posso dizer que a minha admiração por ele é quase... incondicional. Acho que seria capaz de gostar até se ele gravasse um CD de forró... :)