domingo, 27 de maio de 2007

Paulo Ricardo: será que agora vai?

CD Prisma (EMI)
2006

Resenha publicada no jornal
IM - INTERNATIONAL MAGAZINE, edição nº 129 (fevereiro de 2007).



Ex-RPM retorna ao pop romântico com inéditas próprias, de Guilherme Arantes, Kiko Zambianchi e Nico Rezende. E essa talvez tenha sido a decisão mais sensata.


No exterior, a tradição dos cantores prossegue firme. Exemplos não faltam: desde o já octogenário norte-americano Tony Bennett, passando pelo mexicano Luis Miguel até, mais recentemente, o canadense Michael Bublé. Aqui no Brasil, entretanto, a linhagem que iniciou com Francisco Alves, continuou com Sílvio Caldas, Orlando Silva, Nelson Gonçalves, Roberto Carlos, Paulo Sérgio, e desembocou em Fábio Jr, não encontra (sabe-se lá por quê) sucessores. Pelo menos, até o momento.

Daniel? Não, esse não conta. Alexandre Pires? Esse canta bem, tem noção de soul music americana (apesar da perigosa proximidade com o pagode mauriçola)... mas perdeu-se em algum ponto do caminho. Leonardo? Bem... trata-se de um cara simpático, de grande popularidade, porém com uma identificação muito específica com o universo sertanejo para assumir esse papel. De modo que esse nicho poderia muito bem ser explorado por Paulo Ricardo, que, tendo desistido de sua inacreditável candidatura a deputado federal (para piorar, ele concorreria pelo PFL, a legenda de ACM, Jorge Bornhausen e César Maia - valha-me Deus) ressurge com o recém-lançado Prisma (EMI).

Na resenha de seu trabalho anterior (o não necessariamente ruim, porém totalmente desnecessário), Acoustic Live, o IM - INTERNATIONAL MAGAZINE, levantou essa lebre: "seria até melhor (e mais honesto) retomar a persona do cantor romântico, com um repertório autoral e, sobretudo, inédito". Coincidência ou não, foi exatamente isso o que PR fez. E de modo acertado, talvez: afinal, o seu período de maior êxito comercial pós-RPM (com exceção da própria ressurreição do grupo em 2002) foi justamente na fase de "Dois" e "Tudo por Nada".

O que pode vir a atrapalhar um pouco o desempenho de Prisma, é a inserção de faixas que não acrescentam muito, como "Gente (A Mais Bela História de Amor)" (versão de uma música da banda mexicana Presuntos Implicados, na qual Paulo Ricardo emula o canto falado de Lou Reed em um trip hop que não ata nem desata), "Um Dia de Sol" (do grupo gaúcho Papas da Língua), "Ímã do Amor" (inédita de Kiko Zambianchi) e "O Dia D, A Hora H", parceria com... Luiz Schiavon (sim, aquele mesmo do Domingão do Faustão).

Mas sabe de uma coisa? Tais deslizes não chegam a inviabilizar o projeto, que traz momentos até bem interessantes. No primeiro single de trabalho, "Diz", Paulo recorre ao romantismo de Roberto Carlos do período imediatamente após a Jovem Guarda: "se, por acaso, chover/ pode saber que sou eu/ chorando para te dizer/ adeus...". Do ponto de vista melódico, "A Pessoa Errada" remete exatamente à mesma fonte - o refrão lembra "Nada Vai Me Convencer", de Paulo César Barros, que o Rei gravou em 1969 (e o próprio PR em 1995).


Cantor faz referência a Tim Maia e resgata faixa obscura de seu antigo grupo

"Contradição", com sua introdução November Rain, é de autoria de Guilherme Arantes, fala de relacionamento aberto ("quando você chega à triste conclusão que quer uma pessoa só para si/ na verdade, você só consegue ter para si/ uma pessoa muito só") e cairia como uma luva em uma trilha de novela. O mesmo vale para a pop "Menina Linda (Tanto Faz)", "Longe" e a estradeira (com um quê de britpop) "A Chegada". Caso algum desses prognósticos venha a ser realizar, lembre-se: você leu primeiro aqui...

Já "Ninfa" foi resgatada do malfadado Paulo Ricardo & RPM, de 1993 - que, pensando bem, tinha pelo menos outras duas boas faixas: "Gênese" e "Pérola".

No entanto, o ponto alto do álbum, disparado, é a pulsante "Eu Vou Voltar pro Frio", parceria de Cláudio Rabello (que dividiu a produção de Prisma com Julinho Teixeira) com o também produtor, tecladista e cantor Nico Rezende, grande hit-maker da segunda metade da década de 1980, tendo sido gravado por Zizi Possi ("Perigo", "Noite"), Marina Lima ("Pseudo Blues"), Ritchie ("Transas"), Rosana ("Direto no Olhar"), e autor de "Esquece e Vem", grande sucesso em sua própria voz.

"Eu Vou Voltar..." alude instantaneamente a Tim Maia, desde a fala introdutória ("aumenta o retorno?") até o arranjo de metais. Some-se a isso um groove Earth, Wind & Fire e um preciosismo melódico pop digno de Lulu Santos e... está pronto o explosivo. Se alguém fizer um bom remix, vai direto para as pistas. E ainda que ninguém o faça, só por muita falta de sorte Paulo Ricardo deixará de fazer com que essa música, de alguma forma, aconteça. A verdade é uma só: se essa gravação - precisamente da maneira que foi realizada - estivesse em um CD do Ed Motta... a imprensa musical aplaudiria de pé.

E sabe quem está dizendo isso? É justamente o crítico que, no ano passado, torceu o nariz para a gravação de "Isn't She Lovely" (de Stevie Wonder) contida em Acoustic Live, por julgar PR um cantor "nem um pouquinho black".

Moral da história: entre acertos e equívocos (os arranjos, que ficaram a cargo do grupo Yahoo, poderiam ser bem melhores), dessa vez, a empreitada é válida. Afinal, quem você preferiria que estivesse habitando os programas de auditório e rádios populares: Paulo Ricardo (a quem um conceituado jornal carioca, em 1995, por ocasião do lançamento do bom Rock Popular Brasileiro, chamou de "o Emílio Santiago da nossa praia"), ou Banda Calypso, RBD...?

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