sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Caetano Veloso: Torre de Babel

CD Língua (Universal)
2007


Resenha publicada no jornal
IM - INTERNATIONAL MAGAZINE, edição nº 134 (julho de 2007).



Coletânea desigual apresenta gravações do compositor baiano em outros idiomas

Às vezes, é difícil compreender os critérios das gravadoras. Tudo bem, negócios são negócios - e todos precisam sobreviver. Entretanto, no afã de auferir lucro, a indústria fonográfica quase sempre mete os pés pelas mãos. E, muitas vezes, acaba prestando um desserviço ao artista (por mais brilhante que ele seja) e a seu público. Esse é justamente o caso de Língua (Universal), compilação de Caetano Veloso que apresenta apenas fonogramas gravados em idiomas estrangeiros. As duas únicas exceções são "Estranha Forma de Vida", célebre na voz de Amália Rodrigues, cantada por Caetano com convincente sotaque luso; e o rap que batiza o CD, originalmente lançado em Velô, 1984.

Em que pese a qualidade de algumas faixas (e Caetano costuma acertar em releituras de canções alheias), como "Help", a linda "Vete De Mí", "Let It Bleed" e "Dans Mon Île" (do francês Henri Salvador), a coletânea peca por seu caráter desigual - provavelmente resultante da pouca intimidade com a obra do artista por parte de quem selecionou o repertório.

O clássico "Nine Out Of Ten", por exemplo, é apresentado em sua fraca segunda versão (do já mencionado álbum Velô), quando, na verdade, a gravação original, contida em Transa (1972), é simplesmente definitiva. Outro equívoco: escolher "Michelangelo Antonoini" e "Fina Estampa", deixando de fora a ótimas versões de "Jokerman" (de Bob Dylan) e "Mano a Mano" (Carlos Gardel).

Do álbum de 1969, "Cambalaches" foi incluída em Língua; já a bela "Lost in The Paradise", não. Isso sem contar a imperdoável ausência de "You Don't Know Me", faixa de abertura do supracitado Transa.

Mas o álbum tem um trunfo para os colecionadores: o dueto com o Professor Cauby Peixoto em "Cheek to Cheek", que não consta em nenhum dos discos do compositor baiano - está presente apenas em Cauby Canta Sinatra, de 1995. Fica, portanto, a sugestão de um álbum reunindo participações de Caetano (que não foram poucas) em trabalhos de outros artistas (como Cesaria Évora, Luciano Pavarotti, Sérgio Godinho e David Byrne, entre outros). Apesar da grande dificuldade que seria a negociação com várias gravadoras e editoras, esse, sim, seria um trabalho verdadeiramente complementar à obra de Caê - e de grande relevância para quem o admira.

Para os neófitos, Língua talvez valha a pena. Talvez. É uma coletânea de Caetano e, como tal, pode servir a quem não possui os discos originais que abrigam as faixas incluídas nesse CD. Mas, para os iniciados... melhor esperar o disco ao vivo que sai até o final do ano.

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